Rato & Sapato
O aguaceiro veio com força total; gotas caindo mais rápidas do que o que manda a gravidade. Meus passos rancorosos de pedestre brigado com o atual guarda-chuva (por conta do antigo se haver perdido) sequer tiveram ímpeto de ensaiar a corrida: encolhi-me logo, sob a primeira marquise (aliás quase já lotada) e deixei pra depois os velhos escrúpulos que fixam a distância mínima a separar uma pessoa de outra - e sobretudo de outro...
O aguaceiro agora transformava tudo em lama, e ao invés do filosófico titilar das gotas a nos fazer pensar na brevidade da vida; o que se ouvia era como um ronco de águas revoltosas; gargarejo de um gigante mau-humorado, que em sua higiene bucal de cada manhã houvesse cuspido na pia um galão de baba misturada com Anapyon.
O mundo já havia perdido então seus antigos contornos, e meus óculos, secados de improviso pela borda da camisa, completavam a diafaneidade da rua com halos kirlianianos que davam os últimos retoques a esse cenário exótico; propício, aliás, ao que logo se daria, como consequência lógica de tudo aquilo.
Não é preciso dizer que a essa altura os esgotos já se haviam transbordado e que a rua, inteiramente alagada, tornou-se um mar em ressaca a nos atingir com as tsunamis provocadas pelos pneus que sulcavam a lama, impedindo que decantasse.
Quando nossas almas já se amorteciam frente à espera monótona do fim daquilo (e nossos corpos começavam a pôr em ação cada um dos instintivos estratagemas musculares que nos deixam ficar quase estátuas sem risco de cãibras) eis que tudo o seria apenas só isso, transforma-se num espetáculo bárbaro:
Um grito de mulher, logo seguido por um burburinho hermafrodita de risos & comentários embaralhados, arrebatou nossa atenção a um outro plano de realidade.
Embora a maioria alí só pudesse saciar a curiosidade (cá entre nós: o que mais pode haver de tão curioso quanto um grito de mulher?...) Embora, repito, a maioria só pudesse saciar a curiosidade pelo boato que rapidamente percorreu o quarteirão; eu tive, digamos, a oportunidade de acompanhar a tudo de um ângulo privilegiado: minimamente seguro pra não me envolver com a coisa, e amplo o bastante pra que nada me escapasse.
Um rato, desesperado com a invasão do seu esgoto pelas águas, atravessou a calçada aonde nos apinhávamos; e correu pra dentro duma loja de sapatos...
"Ah! Ele deve ter passado bem perto de mim..." Pensei, então; não com nojo ou, menos ainda, com vontade de matá-lo, mas com um sincero desejo de proteger da turba a pequena e no fundo inofensiva criatura.
Identificação, diagnosticariam os psicanalistas...
Só sei dizer que um rinoceronte não teria produzido tamanho pavor...
Farra-do-boi... Farra-do-rato... Grande diferença...
Uma tempestade de sapatos - proporcionalmente ainda maior do que a que desabava lá fora - atingiu em cheio o infeliz, que num patético esforço de vida ainda conseguiu se esconder num tênis... que o deixaria com o rabinho cinzento inteiro à mostra, e imóvel...
Aquilo, em particular, me deu um nó na garganta...
Um heróico & sorridente cidadão de peito estufado (Palmas! Medalha de Honra-ao-Mérito pra ele, gente!) saído da marquise, e tão bem disposto ao serviço-sujo, encarregar-se-ia de desalojar o animal daquele seu ingênuo esconderijo, pisoteando-o e chutando-o pro meio da rua.
Não ouvi nenhum guincho.
Então, por conta de só alguns centímetros, o que poderia ter sido o pneu-de-misericórdia de um carro, seguiu, como que engolindo-o para em seguida deixá-lo reaparecer do outro lado, ao menos com o número de suas dimensões intacto.
Fez-se Meio-Dia em ponto.
O sino da Igreja de São Pedro entoou suas doze mesmas badaladas de sempre.
Acredite-me leitor; estávamos todos paralizados; os olhares de toda aquela pequena multidão espalhafatosa estavam agora fixos, hipnotizados, no rato.
E vou te dizer mais: se houvesse sido possível a toda a nossa miserável espécie acompanhar aquela cena; em cada olhar veríamos a mesma expressão de quem vê o que a vida não explica.
Ele SÓ PODIA ESTAR MORTO.
Ao fim do décimo segundo toque o bicho - sabe-se lá com quantas costelas quebradas - reergue-se, quase se apruma e arrasta-se pro fundo da lama, de onde nos abandona e à nossa estupefação, seguindo, por fim, a um destino talvez menos incerto que o nosso próprio.
O que eu presenciei nesse dia de chuva, foi mais que sobrevivência: foi, juro, uma dessas cenas que só muito AVC vai me fazer esquecer.
Atrevo-me a dizer que todos nós, ali, nos sentimos humilhados nisso a que chamamos (sem definir, aliás) de a nossa "condição humana", ante à força do cambalear daquele gigante.
Eu, pelo menos, quando alguém me vier cobrando por coragem e vontade de viver, vou ter muito o que pensar antes de responder de modo convencional àquela surrada perguntinha: "Mas afinal: você é um homem ou é um... RATO?"...
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